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 O Terceiro Uso da Lei

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Marllington Klabin Will
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MensagemAssunto: O Terceiro Uso da Lei   11/15/2007, 19:24



O TERCEIRO USO DA LEI

Por John Warwick Montgomery, Th.D.

  Em 1528, só uma década depois de Lutero ter pregado as noventa e cinco teses naquela porta, Erasmo declarou que “os luteranos buscam somente duas coisas — riquezas e esposas (censum et uxorem)” e que, para eles, o evangelho significava “o direito de viver como a cada um compraz” (carta de 20 de março de 1528, dirigida a W. Pirkheimer, camarada humanista de Erasmo). Desde aquele dia até hoje os protestantes têm estado sob a suspeita de serem antinomistas e seu evangelho de “salvação pela graça mediante a fé, à parte das obras da lei” tem sido interpretado vez ou outra como uma apólice de seguro espiritual que elimina o temor ao inferno e permite ao homem viver “como lhe compraz”.


—> A Santificação Duplamente Profanada

  De fato, a denúncia de que o protestantismo é essencialmente antinominiano (contra a lei) parece ter uma base especialmente forte durante o século XIX. A industrialização e a urbanização trouxeram consigo males sociais que foram passados por alto e racionalizados por muitos protestantes professos. Inevitavelmente, produziu-se uma reação pelo fim do século XIX e princípios do XX, no movimento do evangelho social. Temendo que o protestantismo houvesse se tornado eticamente indiferente, o movimento do evangelho social de Washington Gladen e Walter Raushenbusch identificou a mensagem cristã com as éticas sociais.

  De uma aparente “justificação sem santificação”, o pêndulo oscilou até uma “santificação que tragou a justificação”. Em sua avidez por trazer o reino de Deus e o melhoramento dos males do proletariado industrial mediante a ação social, os evangelistas sociais perderam de vista freqüentemente a perspectiva central da Reforma: que o amor de Cristo deve constranger o cristão, e que podemos experimentar e manifestar este amor somente tendo alcançado uma relação salvífica pessoal com o Cristo que “nos amou primeiro” (1Jo.4:19) e se deu a Si mesmo na cruz por nós (1Pe.2:24).

  A Primeira Guerra Mundial rebentou a bolha otimista do evangelho social; já não parecia haver grande segurança de que os seres humanos teriam a capacidade de estabelecer uma sociedade santificada na terra. Contudo, a crítica bíblica com o qual se havia alinhado o movimento do evangelho social não morreu tão facilmente. As vozes modernas contra a clareza e veracidade das Escrituras haviam sido tão fortes que nos círculos protestantes de maior influência cria-se que um retorno à ética bíblica proposicional não podia ser efetuada. O resultado foi (e é…) uma ética existencial.

  O existencialismo protestante tem pouca confiança na revelação bíblica, que é objetiva e eternamente definitiva em matérias de ética. Os existencialistas escolhem “o significado” da Escritura por si mesmo para cada situação existencial. (…) Para eles “o correto” ou “o incorreto” nunca se determina absolutamente antes; a Bíblia não é, para eles, uma fonte de ética absoluta. O que distingue a ética cristã da não-cristã? Unicamente o motivo de amor. Segundo dizem, o cristão experimentou o amor de Deus, e assim pode esse amor influenciar suas próprias decisões existenciais…

  A ética existencialista contemporânea no protestantismo é uma segunda manifestação de santificação des-santificada, porque se desenvolve inevitavelmente num relativismo ético. (…) O existencialista protestante jamais pode apelar à lei absoluta; unicamente pode dizer: “És livre, escolhe amar”. Mas o que quer dizer isto em termos concretos? Em teoria pode significar que qualquer ação é lícita — um antinomianismo maduro — porque cada decisão existencial é única e sem precedente. (…) A ausência de uma norma ética eterna no existencialismo de hoje, seja este social ou individualista, o desqualifica totalmente para promover a santidade cristã.


—> A Resposta do Protestantismo Clássico

  No protestantismo da Reforma, fica excluído o antinomianismo sobre a base de uma bem perfilada doutrina da lei e de uma relação cuidadosamente traçada entre a lei e o evangelho. Os Reformadores afirmavam que nenhum homem se salva sobre a base de sua obediência à lei. Como o expressa a Apologia da Confissão de Augsburgo: Lex semper accusat (a lei sempre acusa). Quando quer que um homem se coloca a si mesmo frente à norma da lei — seja esta a lei de Deus revelada eternamente na Bíblia, ou a norma da lei escrita em seu próprio coração — encontra que está condenado. Unicamente o sacrifício expiatório de Cristo, que cumpriu perfeitamente as demandas da lei, pode salvar; por isto se diz, nas palavras do apóstolo, que “pela graça sois salvos, por meio da fé; isto não vem de vós, mas é dom de Deus; não vem das obras para que ninguém se glorie” (Ef.2:8–9).

  Contudo, a lei de Deus, como apresentada nas Escrituras, permanece válida. De fato, a lei tem três funções (ou usos): o político (como restrição para a maldade), o teológico (como “nosso aio… para nos conduzir a Cristo” — Gl.3:24); e o didático (como um guia para o regenerado). Hoje em dia poucos protestantes disputam o primeiro e segundo usos da lei; mas, que diremos do terceiro uso, o uso didático? Necessitam os cristãos, cheios do amor de Cristo e dotados de poder mediante o Seu Santo Espírito, da lei para instruí-los? Não estão certos os existencialistas quando dizem que o amor é suficiente?


—> Uma Doutrina Essencial

  Por duas razões, o terceiro uso da lei é uma doutrina cristã essencial: Primeiro, porque o amor — mesmo o amor de Cristo — ainda funciona como o mais poderoso estímulo para a ação ética, não instrui o cristão no que respeita ao conteúdo próprio da ação. Em nenhum outro lugar isto é tão bem declarado como nos escritos do amado Horácio Bonar, autor do hino “Ouvi a Voz de Jesus Dizer”. Em seu livro “God’s Way of Holiness” (O caminho de Deus à santidade), Bonar escreveu:
      “Mas, nos dirão eles que coisa deve regular o serviço, se não a lei? O amor, dizem. Isto é pura falácia. O amor não é a regra, senão o motivo. O amor não me diz o que fazer; me diz como fazer. O amor me constrange a realizar a vontade do Amado, mas para saber qual é Sua vontade devo ir a outro lugar. A lei de nosso Deus é a vontade do Amado, e onde se retira essa expressão de Sua vontade o amor fica totalmente em trevas; não saberia o que fazer. Poderia dizer-se, eu amo a meu Senhor, amo a Seu serviço e quero fazer os Seus mandados, mas devo conhecer as regras de Sua casa para saber como servi-Lo. O amor sem uma lei que guie seus impulsos seria o progenitor da adoração da vontade e a confusão, tão seguramente quanto do terror e da injustiça própria, a não ser que se exercite sobre a suposição de uma iluminação miraculosa como equivalente da lei. O amor vai à lei para aprender a vontade divina, e o amor se deleita na lei como exponente dessa vontade. E quem diz que um crente não tem mais nada que ver com a lei, senão evitá-la como a um velho inimigo, melhor diria que nada tem a ver com a vontade de Deus. Porque a lei divina e a vontade divina são substancialmente uma; a primeira, a manifestação externa da última. E é ‘a vontade de Meu Pai que está nos céus’ o que temos de cumprir (Mat. 7:21); provando assim, mediante amante obediência, qual é ‘a boa vontade de Deus, agradável e perfeita’ (Rom. 12:2). Sim, ‘o que faz a vontade de Deus, permanece para sempre’ (1 João 2:17). É de acordo com a ‘vontade de Deus’ que devemos viver (1 Ped. 4:2), ‘aptos para toda boa obra para que cumprais sua vontade” (Heb. 13:21), e ‘fruto em toda boa obra’, que emana de ser ‘cheios do conhecimento de sua vontade’ (Col. 1: 10, 9).”Grifos acrescentados.
  Em segundo lugar, a doutrina do terceiro uso da lei é um preservativo essencial para toda a doutrina da santificação. O homem em Cristo recebe um novo espírito — o Espírito do Deus vivo — e, portanto, sua relação com a lei muda. Certo de que, nesta vida, permanece sempre pecador (1Jo.1:8) e, por conseguinte, a lei sempre o acusará, mas agora vê a lei bíblica sob outra luz — como a manifestação da amante vontade de Deus. Agora pode dizer com o salmista: “Deleito-me em ‘Tua lei’” e “Quanto amo a Tua lei!” (Sl.119:70,97; cf. Sl.1,19).

  Só levando a sério o terceiro uso da lei — “lei de Cristo” (Gl.6:2) — levamos a sério a regeneração; e unicamente quando vamos ao amor de Deus, revelado na lei, a santificação chega a ser uma realidade em nossas vidas. Ludwig Ihmels fez uma bem fundamentada confissão de fé quando escreveu em sua obra “Die Religionwissenschaft der Gegenwart in Selbstdarstellungen”:
      “Estou convencido, como esteve Lutero, de que o Evangelho pode somente ser entendido onde a lei efetuou sua obra nos homens. Estou igualmente convencido de que o cristão humilde, com tudo e o muito que deseje viver numa medida maior no Espírito, jamais quererá valer-se sem a santa disciplina do tertius usus legis (o terceiro uso da lei)”.
  A resposta ao antinomismo, ao legalismo, ao evangelho social e ao relativismo existencialista firma-se não só numa distinção adequada entre a lei e o evangelho, mas também na harmonia adequada entre a lei e o evangelho, como a propõe a doutrina clássica do terceiro uso da lei.



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